Fichamento ilustrado "Teoria do Não-Objeto"

 Teoria do não objeto:

               O manifesto de Ferreira Gullar busca explicar as nuances e a dualidade entre o objeto e o não-objeto. Já de início, a primeira dúvida corriqueira já é esclarecida, ao pontuar que o não-objeto não significa uma oposição completa ao conceito do objeto, não busca ser sua representação oposta e tampouco busca representar algo. Essa introdução é de suma importância, pois nos traz um conceito geral e aguça a curiosidade para continuar a leitura.

               A primeira parte do livro, narra a trajetória da arte até o fim da pintura. Para isso, Gullar afirma que o impressionismo matou o figurativo no momento em que os artistas buscam representar em suas obras não o que o objeto é em si, mas sim sua impressão através da sombra, luz e seus reflexos. Ele exemplifica o paragrafo com as obras de Monet, e mostra que quando o artista se rompe das amarras do uso da linha, se vê controlado por um lugar mais amplo: a tela.

Camille (mulher no vestido verde) – 1866

Water Lilies – 1919

               Como uma apreciadora das obras de Monet, pesquisei m ais sobre elas a fim de compreender de forma mais visual o que estava sendo dito no texto, e consegui identificar essa desconstrução e fuga das linhas dentro dos próprios quadros do artista. A primeira obra é de 1866 e parece muito mais figurativa do que a segunda, que data dos anos 1900 e se torna mais um amalgama de reflexos e texturas do que qualquer outra coisa.

Mais adiante, ao citar Maurice Danis, o texto propõe que ao modo que a pintura perdia o significado gradativamente, a tela como objeto ganhava mais importância. Ainda nesse ponto, ele cita as fases do cubismo: a analítica e a sintética. Na primeira, buscava-se utilizar de colagens, recortes e outros materiais para adicionar textura. Na segunda, o objetivo era de eliminar de vez os vestígios de alusão ao tridimensional.

Relacionando esse uso da textura e do transcender a tela aos quadros citados anteriormente, não pude deixar de lembrar de uma cena icônica em um filme antigo chamado “As patricinhas de Beverly Hills”, onde a protagonista compara uma colega a um quadro do Monet que, nas palavras dela “De longe é muito bonita, mas de perto é um horror””. Essa visão simplista da obra, provavelmente chegou ao imaginário popular com o tempo, conforme o artista se desdobrava em tentar tirar a representação da “coisa” de seus quadros.

Sua próxima exemplificação diz respeito a Mondrian e seu estilo único. Segundo o autor, ele consegue abstrair da pintura a cor, a matéria e todo o resto, deixando para trás apenas a tela em branco. Porém, ele também levanta uma questão em relação ao uso das linhas pretas em suas telas, que confinam a cor dentro de si e só são abandonadas em seus últimos trabalhos como nas imagens abaixo. Ainda assim, seu trabalho não se considera como não-objeto e a contradição não é de fato resolvida.

Composition with Red, Blue and Yellow – 1930

Broadway Boogie-Woogie – Wikipédia, a enciclopédia livre

Broadway Boogie-Woogie – 1943

               Colocando as duas lado a lado dessa forma, a mudança se torna visível, mas ainda assim, seu trabalho não se considera como não-objeto e a contradição não é de fato resolvida. Isso porque, para Gullar, a arte abstrata não é considerada como não-objeto, pois ainda representa algo, mesmo que de forma não intencional. Além disso, ele demoniza a moldura por confinar a arte e separá-la do expectador, aproximando da ficção ao invés do mundo real, e traz Kurt Schwitters para exemplificar a fuga da moldura.



Marzbau – 1937

               Através do exemplo da obra acima, ele diz que a arte se vê livre no espaço real, e me lembrou algo dito por um colega na discussão em sala sobre o texto. Na ocasião, ele explica que para entender os conceitos do texto, imaginou uma janela coma vista de um parque como se fosse a obra abstrata em uma moldura, e o não-objeto seria como entrar naquele parque de fato e interagir com ele, quebrando as barreiras físicas da parede e da janela, as molduras do exemplo, e eu gostei muito dessa analogia.

               Ainda pensando nas barreiras que vetam o público do contato total a obra, ele muda o foco para as esculturas agora, e por sua vez, critica o uso da base. Para ele, é necessário se livrar delas e das massas das esculturas abstratas, para transcender a barreira da escultura e transformá-las em um objeto especial. E finaliza a parte da morte da pintura dizendo que tanto os quadros quanto as esculturas tendem a afastar-se de sua origem comum.

               A próxima parte do livro, se chama “Formulação primeira” é mais curta e se propõe a explicar melhor crítica ao uso de molduras e bases com o objetivo de romper com limites tradicionais, dos quais os artistas têm se escorado, e faz com que qualquer coisa que seja colocada dentro de uma moldura vire arte, e propõe que o caminho para o fim disso seja a criação de não-objetos.

               A terceira e última parte do texto se segue em um grande diálogo entre “A” e” B”, que busca explicar melhor sobre a teoria de não objeto.  A caracterização do não-objeto se inicia falando sobre sua utilidade, pois diferentemente dos objetos do dia a dia (caneta, fone, tomada etc.) ele não pode ser resumido a sua utilidade ou seu sentido.

               O próximo diálogo foi o que mais e deixou confusa e fala sobre nome. Não sei se minha interpretação está equivocada, mas ao vermos o objeto de forma cultural, ele é apenas “coisa”, sem nome. Isso porquê, segundo o autor, os objetos são formados por nome e coisa, os dois sobrepostos, mas apenas o nome se rende ao homem. Assim, ao tirar o nome deles, eles se aproximam dos não-objetos, mas não se tornam eles de fato, pois diferentemente do objeto, o não-objeto não tem essa separação em amadas e tem seu significado em si mesmo e não em seu nome que se curva ao homem.

               No que diz respeito a natureza morta, ela se apresenta em um meio termo entre o objeto e o não-objeto, visto que se livra da condição objetificada por completo, mas não chega a atingir a condição de não objeto pois ainda representa algo. Já o não objeto não representa nada pois ele só se apresenta.

               Ao longo do interminável diálogo, ele das mais definições do não-objeto. Ele diz sobre a contradição figura-fundo, critica novamente o uso da base e da moldura, mas defende que apenas eliminá-la não é suficiente para criar um não-objeto.

               A partir daí, as respostas tornam-se mais detalhadas e filosóficas em um nível que traspassam as barreiras de meu entendimento, e a exaustão mental de ter chegado até aqui na interpretação minuciosa de cada paragrafo do manifesto impossibilitaram um grande progresso na continuação de tal tarefa. Assim, encerro minha análise e transcrição detalhada sobre o texto de Ferreira Gullar antes que meus pensamentos se embaralhem em minha mente e minhas palavras deixem de fazer sentido.

 

Dicionário de palavras que eu não entendi:

Pictórica: Que diz respeito à pintura; que se assemelha à pintura.

Tachismo: Uma das tendências da pintura abstrata dos anos 50, caracterizada pela projeção de manchas e formas como que caligráficas, feitas com as bisnagas de tinta diretamente sobre o suporte do quadro (Mathieu, Degottex, Wols etc.). exemplos:



ILumière: Tachismo: o abstratismo espontâneo

Franquear: Passar além; transpor: franquear barreiras.

Imanente: Que faz parte de maneira inseparável da essência de um ser; inerente.

 

 

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